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“The True Cost”, de Andrew Morgan

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The True Cost é um documentário sobre o mundo por trás de marcas de roupa muito conhecidas e o consumismo a ele associado. A economia, hoje me dia, é sustentada pelo consumismo desmedido e, por essa razão, as grandes empresas fazem todos os possíveis para ganhar o maior lucro possível, mesmo que para isso tenham de pôr em risco o ambiente e a vida dos trabalhadores.

O documentário mostra-nos várias faces do mundo da moda. São entrevistadas várias pessoas que tentam fazer moda sustentável e ao mesmo tempo recompensar devidamente aqueles que trabalham para elas. As empresas acusadas de mão de obra  quase escrava e poluidoras do ambiente não responderam à tentativa de contacto por parte das pessoas envolvidas na criação deste documentário.

Este é um tema muito importante e pelo qual tenho especial interesse. Não é o primeiro documentário que vejo sobre o assunto, mas nunca é demais vermos novas perspectivas do assunto.

As grandes empresas, como a H&M, a mais falada no documentário, vão a países subdesenvolvidos, como o Bangladesh, instalar as suas fábricas, se é que se podem chamar assim. As costureiras não têm condições para trabalhar, os espaços estão sobrelotados e não existem as mínimas condições de segurança. Alguns edifícios que albergavam estas fábricas desabaram, matando centenas de pessoas, e os patrões já tinham sido alertados para as condições degradantes dos mesmos, mas não quiseram gastar dinheiro nas suas renovações. Há imagens de manifestações, em que o governo do país e a polícia intervêm e tratam os manifestantes, que pedem condições de trabalho e salários dignos, como se fossem criminosos. Aquelas pessoas são capazes de ganhar 3, 4, 5 dólares por dia e pediam, no exemplo dado no documentário, apenas um aumento para os 160 dólares, que, tendo em conta os salários da Europa, continua a ser uma miséria. Mas a verdade é esta. Se uma T-shirt tem de ser vendida a 5 euros, a pessoa que a faz terá de ganhar menos do que isso para que o investidor lucre com a venda. Acompanhámos uma rapariga de 23 anos que chegou a ganhar 10 dólares por mês. Tem uma filha, que não tem onde a deixar e, por vezes, leva-a para a fábrica, mas raramente o faz porque a fábrica está sobrelotada e faz demasiado calor lá. Mais para o fim do documentário, vemo-la obrigada a levar a filha para casa dos avós que vivem longe da cidade onde ela trabalha. Esta mesma rapariga conta-nos um episódio que aconteceu  na fábrica onde trabalha quando ela e outras colegas se foram queixar ao chefe: depois de terem feito queixa ao patrão, as costureiras foram fechadas numa sala de trabalho e esmurradas e espancadas. E esta não foi uma situação única. Com isto, os patrões querem assegurar que não haja mais reivindicações.

Estas marcas “vendem” o consumismo. Podem comprar-se calças a 9 euros, mas estas não irão durar muito tempo e a pessoa tem tendência a deitá-las fora e comprar outras num espaço de tempo muito. É esta a política de marcas como a Primark, Forever 21 ou Lefties. É mostrado um anúncio a uma promoção de Leve 3, Pague 2 que me deixou chocada. Havia uma mulher que pegava numa das calças compradas na tal promoção e limpava a bancada da cozinha com elas, deitando-as depois fora, pois como são baratas, não custa nada comprar outras. Para mim, era impensável fazer algo assim. Como é permitido fazerem-se anúncios com mensagens destas?

truecost1As imagens presentes no documentário de uma Black Friday  (penso que tenha sido nos EUA) também são chocantes: pessoas a correrem, aos gritos, a apanharem a primeira coisas que lhes aparece à frente, sem verificarem se é o número delas nem nada, e que de certeza não precisam. Isto é puro consumismo! As pessoas também se esquecem que quando deitam roupa fora, ela não desaparece como que por magia. A imagem da lixeira cheia de roupa impressionou-me imenso. Aquela roupa não se vai decompor em menos de 200 anos e os seus químicos contaminam os solos e o ar à sua volta, afetando o planeta e, consequentemente, o ser humano.

A mensagem que estas marcas transmitem é que o que nos fará felizes é o produto que elas estão a vender, por isso temos de o comprar. Mas não! Não é verdade. O que realmente importa são as pessoas, as experiências que vivemos, as boas ações que fazemos no dia a dia, o nosso planeta, que tem vindo a ser cada vez mais maltratado com o passar dos anos e não uma bugiganga qualquer que umas semanas depois olhamos para ela e perguntamo-nos: “por que raio fui eu comprar isto?”. Tentemos ser menos egoístas e pensar mais no mundo que nos rodeia. Podem argumentar que determinada peça é mais barata e que não têm dinheiro para comprar uma mais cara, mas, se pensarem bem, por norma, não é, porque como a qualidade tende a ser menor, terão de comprar mais peças num curto espaço de tempo. Também não estou a dizer para irem comprar roupa da Channel ou da Tommy Hilfiger, nada disso. Tentem sempre verificar a qualidade da peça e onde ela foi feita. Se tiver sido feita em Portugal, por exemplo, depreende-se que foi feita de forma mais cuidada e com uma qualidade superior a uma peça feita na China.  Outra questão importante é que não precisam de comprar uma coisa apenas porque está na moda. O que é isso da moda? A moda somos nós quem a fazemos. A nossa identidade é que dita aquilo que queremos vestir e não um qualquer magnata que só tem interesse em vender e nada mais.

TrueCost_FilmStill_05Outra questão bastante importante abordada no filme é a ameaça que estas empresas representam para o ambiente: o algodão geneticamente modificado (se bem que o algodão dito normal também não é muito bom para o ambiente, pois requer mais água para irrigar os terrenos onde são plantados), os químicos utilizados, que são despejados nos rios, afetando não só o ambiente, mas também a saúde da população que vive perto das zonas de produção, etc. Estas populações são afetadas por doenças, malformações e deficiências mentais.

No meio de tanto consumismo e ganância pelo dinheiro, conseguimos ouvir testemunhos de pessoas que têm negócios sustentáveis, amigos do ambientes, e que contratam trabalhadores a quem dão um salário digno. É muito importante que estas empresas sejam ouvidas. Estas lojas não fazem roupa em série, o impacto ambiental é bastante menor e estão em “harmonia” com o planeta e o ambiente. A própria Emma Watson (mais conhecida pelo papel de Hermione Granger na saga Harry Potter) tem uma linha de roupa ecológica e sustentável. É bom que haja figuras públicas com estas preocupações e que ajudem a difundir esta nova forma de fazer roupa.

O filme tem um site próprio, em que podem encontrar dicas para se ser um melhor comprador, informações sobre o impacto ambiental que a indústria da moda causa, os direitos humanos, entre outros assuntos relacionados com o tema. Se tiverem interessados, visitem: https://truecostmovie.com/.

Relacionado com o tema, mas já não sobre o documentário: o programa Linha da Frente, da RTP, transmitiu no passado dia 17 de janeiro uma reportagem sobre o impacto ambiental do fabrico de roupa. A reportagem aborda o facto de haver microplásticos na água da torneira, a poluição que o fabrico de roupa causa e as estratégias de marketing que as empresas utilizam para fazer crer ao consumidor que o que estão a comprar é sustentável. Podem ver esta reportagem na RTP Play. É bastante interessante e tem apenas 30 minutos.

Edha

Apesar de não ser uma série muito boa e de se parecer com uma novela mexicana em certas partes, Edha, a primeira série argentina da Netflix, também aborda a questão das fábricas ilegais de produção de roupa. Ao contrário do que é falado no documentário, aqui temos uma marca de alta costura que recorre a este tipo de trabalhadores para fabricar as suas roupas. É completamente legítimo dizer-se que este problema também existe nas grandes marcas, mas acredito que não seja com tanta frequência como o que acontece nas marcas que vendem os artigos a preços mais baratos, até porque a quantidade que é fabricada de cada peça é muitíssimo inferior à que é fabricada para uma marca como a Primark e o retorno que cada peça dá à marca é muito maior.

Já que estamos a falar da Primark, esta é uma daquelas marcas que deixei de comprar. Nunca fui grande consumidora dos seus produtos, até porque são visivelmente maus, a única coisa que comprava eram as T-shirts com estampados das minhas séries/filmes preferidos, mas deixei de o fazer. A qualidade dos produtos é má, como já tinha dito, utilizam mão de obra quase escrava (até os trabalhadores das lojas em Portugal são obrigados a trabalhar várias horas seguidas sem pausa) e os produtos utilizados na confeção dos artigos não são amigos do ambiente. Sabiam que encontraram um osso humano dentro de um par de meias numa loja da marca em Inglaterra?

Documentários como este nunca são demais. Ainda há muita gente que consome só por consumir, sem pensar nas consequências dos seus atos ou então sabendo e não querendo saber. Os outros que se arranjem, não é? Eu estou bem, quero lá saber se quem fez a peça de roupa mal tem dinheiro para comprar comida ou se estou a matar o planeta em que estou a viver. Eu vou morrer, não é? Já cá não estarei para sofrer as consequências.

Sou uma pessoa muito realista e não pessimista, como me costumam chamar. São pessoas como os criadores deste documentário que me fazem ter alguma, ainda que pouca, esperança de que as coisas podem mudar, pois, infelizmente, a maioria das pessoas continua a não dar importância a estes assuntos.

Não fiquem indiferentes, um pequeno gesto pode fazer a diferença. Comprem com moderação!

O documentário está disponível em DVD, Blu-ray, na Netflix, para aluguer online ou download.

Avaliação Final: 7/10

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